sábado, 23 de maio de 2009

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Refletindo sobre... PALAVRA


A primeira vista, seria cabível imaginar as palavras como estruturas bem limitadas. Afinal, cada uma delas toma um sentido particular na hora de cumprir sua função de comunicar: em termos de abrangência, uma é mais ou menos específica que outra no que almeja retratar; Em termos de intensidade, às vezes a palavra não consegue exprimir o quanto sentimos e por outras manifestam a mais. Com o mal uso de apenas uma palavra, o que era para ser apenas brincadeira pode parecer sério, e vice-versa. Por todos esses fatores, às vezes quando tentamos dizer algo e falta à mente aquela palavra, temos a sensação de que os sinônimos não dão conta do sentido exato que queremos passar. Logo, quanto mais palavras, mais recursos para tentarmos expressar da melhor maneira nossos pensamentos, na intensidade que estamos pensando, da forma que queremos transmitir. Os possuidores do chamado “dom da palavra”, a retórica, conseguem construir seu discurso com uma seleção vocabular muito específica, estruturada na coerência, coesão e ordem lógica das idéias, de forma a ser extremamente claros, precisos e compreensíveis no que dizem, dando ao ouvinte ou leitor a mínima margem possível de fuga ao que querem expressar.

Mas as palavras podem também ser traiçoeiras, se considerarmos os diversos sentidos que podem assumir, dependendo do contexto, da entonação, da linguagem corporal que as acompanha e, em última estância, da interpretação individual. Quando lemos, ou escutamos determinada frase, lemos e escutamos conforme o que há em nós, com todo nosso conhecimento prévio, ou com a falta dele; com a expectativa do que acreditamos que poderá vir daquela fala, daquele narrador. Com nossos sentimentos sobre quem fala, ou sobre o tema que fala. Com nossas experiências passadas. Daí derivaria tal importância de escolher sempre as palavras que se restrinjam ao máximo ao sentido que desejamos passar com elas, para que não gere falha na comunicação.

Entretanto, no outro lado da moeda dessa questão está a Literatura, que é a arte de usar propositalmente esse poder da palavra de ser camaleônica; de conter uma gama de sentidos, de nuances; de ser ampla, abstrata e pessoal para poetizar, para deixar uma porta entreaberta nessas palavras, nas frases e mesmo no desfecho para caber todo pensar e todo sentir. A Literatura vai na direção contrária do rotineiro ao tentar buscar no fundo do baú das palavras as que forem constituídas do maior número de faces possível e poli-las de forma a se encaixarem umas nas outras, gerando múltiplas visualizações. Assim ela passa a ser construída além de por quem escreve por quem lê também.



Ao pensarmos palavra com um pouco mais de cuidado sentimos que ela não é etérea. As palavras têm peso, têm forma, têm força de transformação. Transformam o que é no que não é. Iludem, confortam, ferem, surpreendem, conquistam, libertam, comprometem, manipulam. As palavras são vazias quando travam uma relação de contradição com as ações, ou quando de tão repetidas, esvaziam-se de seu sentido, pois todos, de tanto escutá-las, não consideram mais refletir sobre. São bonitas e feias pela harmonia sonora entre os fonemas quando ditas, ou pela harmonia visual entre os caracteres seguidos que juntos as formam. Podem também assim ser classificadas pelo que descrevem: palavras que falam sobre bons sentimentos, por exemplo, são consideradas bonitas; as que representam algum tipo de dor, perigo ou situação desgostosa, são feias e evitadas. As palavras quando musicalizadas ganham melodia e ritmo. Delatam os subgrupos contidos em um grupo – são as gírias e os jargões. Constroem uma escala de status entre elas, onde na base estariam as palavras ditas ‘de baixo calão’, pejorativas, até o topo, onde estariam palavras desconhecidas e pouco proferidas. Há também um status das pessoas em relação às palavras, que é diretamente proporcional as palavras que usam. Ou seja, se usam da base da escala são consideradas vulgares, rudes, obscenas; do topo, são pessoas articuladas, cultas, refinadas. Ganham textura quando falamos em palavras ásperas. Algumas vezes ainda mantêm uma curiosa relação entre seu sentido e sua construção gráfica: a palavra pequeno é maior que a palavra grande. Talvez porque se houvesse uma relação entre o tamanho da palavra e o que ela representa, precisaríamos de outro Infinito para representá-lo.

A palavra pesa porque quando dita, ou quando mantida em segredo, em silêncio, constrói ou destrói tudo no mundo. As palavras que dizem ‘sim’ ou ‘não’, ‘vai’ ou ‘quero que fique’, ‘te amo’ ou ‘te odeio’ ou a ausência dessas palavras podem ser as responsáveis por uma morte, por uma historia de amor, por uma guerra, por uma fuga. Ditas ou caladas, elas expressam nossas escolhas, impulsivas ou muito pensadas, motivo de arrependimento ou orgulho futuro. Palavras e silêncios têm conseqüências práticas no mundo, são as ferramentas que constroem nosso caminho, nossa vida.

É interessante então pensar nas palavras a partir da vista de uma criança que está começando a aprendê-las. Ela inventa nomes para falar das coisas, baseando-se no que ela consegue captar dos conceitos pré-estabelecidos que os outros pronunciam. E às vezes, ao pronunciar duas sílabas na ordem contrária, ou uma letra errada, os transforma em outras palavras com um sentido totalmente diferente, provando que as palavras que são tão grandiosas, tão amplas, tão cheias de poderes e capazes de tanto no mundo, são também coisas muito frágeis, partidas por linhas bem tênues, e assim como a maioria das coisas do Universo, imersas em mistérios e contradições.


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2 comentários:

luiz scalercio disse...

bellissimo texto.
gostei muito.
prbns e muito
suceso al seu
trabalho do blog.

William Cascaes disse...

As palavras têm um poder incrível.

Excelentes texto e blog.

http://poisonmandyfpb.blogspot.com/